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História

Uma história de determinação

História de: Luciana Francisca Alemão
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Luciana Francisca Alemão, pernambucana de Jaboatão dos Guararapes, emociona-se ao se ver hoje professora, e particularmente do Telecurso - onde o seu recomeço aconteceu - e ao recordar-se de tudo que precisou enfrentar para provar o quanto era capaz. Também se emociona ao lembrar, com gratidão, de todos que a apoiaram e também da oportunidade que teve de fazer da sala de aula um espaço de conquistas e não de imposição de conteúdos; um lugar possível de garantir uma educação de qualidade, um aprendizado com sentido, um fazer onde se sinta o prazer de saber e de aprender.

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História completa

Meu nome é Luciana Francisca Alemão, sou pernambucana de Jaboatão dos Guararapes. Além das brincadeiras e da escola onde aprendi a gostar dos estudos, lembro também de uma época difícil em casa, onde convivíamos todos sob as tensões do comportamento agressivo do meu pai envolvido com o alcoolismo. Lembro que eu concluí o ensino fundamental, mas o médio acabei interrompendo: era incompatível com as muitas responsabilidades que tive que assumir - avós doentes, casa enorme, todo o serviço doméstico… Em seguida, casamento, gravidez, a oposição do marido, e a educação posta de lado. Somente aos 25 anos é que minha mãe me apresentou ao Travessia, como o Telecurso é chamado em Pernambuco. Fui fazer, ainda que não muito encorajada, inclusive por mainha que nunca acreditou verdadeiramente que eu conseguiria. E não era para menos, dado o número de vezes que ensaiei voltar aos estudos e desisti. Mas me encantei com a dinâmica da Metodologia Telessala - e ajudou-me também o apoio especial e a confiança que recebi de uma professora - Mabel. Ali, pode-se dizer, eu reencontrei o gosto pelo aprender, eu entendi a importância do conhecimento sendo construído, diferente da imposição de conteúdo, que era o habitual. Lembro de que o que também pesou na minha decisão de abandonar os estudos foi a insatisfação com o método, a rotina desinteressante do ensino regular. Tanto que, naquela época, eu me refugiava na leitura. Uma professora chegou a profetizar que eu seria escritora.

 

Ler é conhecimento de mundo.

 

No momento delicado de minha vida, tudo o que eu queria era voltar a estudar, concluir meu curso, conseguir uma colocação para poder criar o meu filho - na época eu só tinha ele (hoje eu tenho uma menina também) e não acreditava muito no futuro do meu casamento.

 

“Eu quero. Pelo menos eu termino o ensino médio e pego o certificado, vou ser vendedora de loja”.

 

Hoje, como professora justamente do projeto Travessia Recife, como o Telecurso é chamado no município, eu leio textos de alguns estudantes e neles eu identifico as minhas angústias, as necessidades e esperança daquele período - ter escolaridade suficiente para ser alguém na vida. Vejo o quanto foi determinante para o meu futuro o acolhimento que recebi e a metodologia que encontrei no Telecurso; algo diferente na Educação, ou seja, não simplesmente a transmissão de conhecimento, as atividades, tudo mecânico, frio, impessoal, o conteúdo sendo despejado e pronto. No Telecurso - e é o que eu, como professora, me esforço para dar continuidade - o estudante, mesmo aquele desacreditado como eu estava, e em defasagem idade-ano - é levado a compreender e não decorar; encontrar, em termos de saber, o que está buscando. Então, eu procuro oferecer aos meus estudantes o mesmo que, como estudante, o Travessia me ofertou. A questão da valorização, da oportunidade, do ser ouvido, do ser acreditado, ser respeitado e estimulado com relação aos saberes que o estudante também traz, e não só o professor. Porque entregar ao estudante um ensino de qualidade é para mim uma forma de agradecer o que eu recebi no Telecurso, com a Metodologia Telessala. O apoio que tive como estudante e como ser humano. Porque só eu sei o sacrifício, a luta que foi para concluir. Lutar contra dificuldades financeiras, estruturais, emocionais - ter que andar com meu filho no colo um quilômetro e meio, à noite, ida e volta, por não dispor de dinheiro para a passagem; a oposição do meu esposo; a descrença de mainha. Mas, afinal, rompendo um obstáculo a cada dia, sonhando e realizando, tenho duas matrículas como professora em duas redes municipais de ensino, além do Travessia Recife; porém, o desejo que acalento, seja qual for o segmento e o estabelecimento de ensino, é o de poder proporcionar uma educação de qualidade a quem dela mais necessita. É multiplicar, no sentido de que outras Lucianas possam construir as suas histórias de sucesso, conquistas e realizações. Por meio da educação.

 

Quando eu colei grau, minha mãe me disse: “Eu pensei que você não fosse à frente, mas você me surpreendeu. Você não sabe quanto orgulho eu sinto de você.”

 

E assim eu pretendo que o Travessia tenha para mim, professora, o mesmo significado que teve para mim, estudante. Um desafio e muitas expectativas, um espaço de vivenciar várias histórias, várias realidades, várias descobertas. Vivências novas. E, diariamente, a mesma indagação: “Meu Deus, eu vou dar conta?”

 

O Travessia mudou a minha vida e agora eu posso acompanhar a transformação de outras vidas por meio dele.

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