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História

A confiança que fez crescer

História de: Darlene Alcântara Barboza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Neste depoimento, Darlene Alcântara Barbosa relata sua infância em Cajazeiras, interior da Paraíba, onde nasceu. Fala das coisas marcantes que viveu na infância e na adolescência: das brincadeiras de rua, do seu jeito moleca de ser, do Colégio Diocesano, bonito lá no alto do morro, das peças de teatro que ali apresentou, das festas que organizou, do colégio de freiras onde estudava, e ao qual não se adaptava. Recorda a figura, também marcante, de seu bisavô, que ajudou a criá-la até os sete anos. Por fim, a morte da mãe aos 17 anos, os seis meses sozinha com o pai, a ida para João Pessoa. E lá, os tempos difíceis, os primeiros empregos, até que passou a trilhar o caminho do magistério. Primeiro no EJA, depois o ensino fundamental, a sobrecarga daquele tempo - manhã, tarde e noite - a chegada do projeto Alumbrar, o Telecurso na Paraíba. Nesse meio tempo, a figura do pai, sempre presente, sempre parceiro, ajudando, cuidando, carinhoso. Carrega, no entanto, na emoção ao descrever, com detalhes, a sua trajetória no Alumbrar. A entrega, o forte vínculo construído em relação às suas turmas, e das turmas em relação a ela. A caminhada nada fácil e, ao mesmo tempo, prazerosa dentro de sala e, por exemplo, quando adentraram o interior do estado, muito mais com o compromisso da descoberta e do conhecimento do que com a alegria do passeio. Tudo isso deixou marcas profundas e a certeza de que foi possível construir o saber, fazer muito mais do que participar.

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História completa

Nasci no alto sertão da Paraíba, Cajazeiras, a cidade que é conhecida como a que ensinou a Paraíba a ler, dado que teve as primeiras escolas, uma espécie de berço da educação no estado. Éramos de classe média baixa e eu só estudava em escola particular graças a uma bolsa de estudos. Meu pai tinha uma serigrafia, minha mãe era professora. Era professora lá de onde eu estudava, um colégio de freiras ao qual eu, inclusive, não me adaptava. Tanto que, em determinado momento, eu pedi a minha mãe que me tirasse de lá porque eu não queria ser professora, mas, no fundo, o que eu queria mesmo era me livrar daquelas regras. Mas uma imagem que marcou a minha infância e a minha adolescência foi o Colégio Diocesano - lindo, no alto de um monte. Lá eu participei de grupos de teatro e tenho algumas histórias deliciosas para recordar. Como a cortina para um cenário, que fomos obter retirada da sala de um casarão imenso. Ou a camisola que ninguém queria vestir e quase impediu que a peça fosse encenada.

 

Na infância - e até adolescente mesmo - eu fui muito moleca. Brincadeiras de rua, bola, correr descalça com os meninos… Também gostava muito de organizar festas na rua e de acompanhar meu pai na serigrafia - ajudava em tudo, só não imprimia. Aliás, eu sempre fui muito agarrada com ele, mais do que com a minha mãe, que, por sinal, faleceu quando eu tinha dezessete anos. Minha irmã já estava em João Pessoa, ficamos, eu e meu pai, sozinhos, por seis meses, em Cajazeiras ainda e, depois, fomos também para a capital.

 

Ainda sobre a infância, guardo carinhosa recordação de meu bisavô materno, que, junto com tia Medusa, ajudou a me criar até os sete anos, num período de dificuldades conjugais na minha casa. E assim eu me dividia entre a minha casa e a casa do meu bisavô, uma casa simples, com piso de barro e fogão de lenha, mas que eu adorava. Já a minha era bonitinha, bem pintada, piso de mosaico. Do projeto à construção, tudo o meu pai mesmo fez. Em João Pessoa, eu casada, ele morava próximo. A figura do meu pai sempre foi muito presente na minha vida até o final, muito presente e muito intensa. Nunca deixou, um só dia, de vir a minha casa. Na doença, ele quis permanecer comigo. Sempre participante, sempre interessado nas minhas coisas, vivendo comigo os assuntos de escola: “Deve fazer, sim”. “Acha que dá mesmo certo?” “Vamos experimentar!” Quando, por exemplo, eu resolvi fazer xilogravura, ele me ensinou, ele fez comigo. E eu também, sempre ao lado dele. Como quando ele se formou em História, por influência de minha mãe, quem estava lá com ele era eu, orgulhosa dele e sentindo a sua tristeza pela ausência de sua incentivadora.

 

Bom, mas aí, antes de enveredar pelo magistério, trabalhei com outras coisas. Até que gostei, vivi momentos engraçados como fotógrafa, por exemplo, mas então finalmente segui a vocação e tentei o concurso para o estado. Comecei com EJA e, cá para nós, não gosto muito não. Sabe por quê? Porque acho que não me saio muito bem, não consigo dar o melhor de mim, embora digam o contrário. Me dei muito bem foi com os pequenininhos. Todavia, hoje, na Prefeitura e no estado, me divido entre EJA, os pequenininhos e o fundamental. O fato é que, da EJA, naquela época, fui para o ensino fundamental, só que enfrentei dificuldades nas duas modalidades; mas, enfim, cheguei a uma escola de referência lá em João Pessoa, ligada a uma paróquia, e lá… Eu digo, sem hesitar:

 

(...) que a minha faculdade, a minha universidade foi no Instituto Dom Adauto. Tudo o que eu queria experimentar, eu experimentei naquela escola, tudo o que eu tinha vontade eu fiz nessa escola.

 

Eu sei que lá, numas salas que tinha lá - talvez um antigo arquivo morto - eu fiz loucuras que a minha disciplina e o meu entusiasmo permitiam: “Fiz papel reciclado, trabalhei com argila… Eu fiz muita coisa”. Naquele local, que era um prédio abandonado, graças às minhas loucuras, passaram a existir, além da sala de Artes, uma sala de leitura, uma sala de vídeo e um laboratório.

 

Aí o Telecurso chegou na minha vida, na minha carreira. Chegou como um projeto que vivi intensamente, chamado Alumbrar na Paraíba. Chegou fazendo de cada momento, cada atividade, um aprendizado. Sempre muito perto dos estudantes, não só de suas necessidades educacionais, como de suas vidas mesmo.

 

E o Alumbrar veio para mim como um desafio, uma turma só minha. Eu tinha muito a necessidade de ter um estudante junto de mim, conhecê-lo. O que o Alumbrar me deu de melhor foi isso de eu me encontrar mais junto do meu estudante, saber dele, da pessoa dele, sabe?

 

E, dentro desse projeto, convivendo com as maiores dificuldades e com os resultados mais gratificantes, eu registro um… vamos chamar assim, um projeto maior dentro do projeto, que foi levar os estudantes, todos eles, por cinco cidades da Paraíba. Visitas que não foram passeios, foram conhecimento. Que foram importantes porque eles se sentiram importantes; dentro da Geografia dos lugares; dos fatos da História; dentro de cenários do Auto da Compadecida; no silêncio das igrejas; no desvendar dos teatros; no contato com a Natureza; com o sertão. Conheceram o circuito do Caminhos do Frio, como viveram a emoção histórica do que ainda resta dos locais onde estiveram as Ligas Camponesas. Eles se emocionaram e nos emocionaram; se surpreenderam e nos surpreenderam; aprenderam e ensinaram. Se interessaram, interagiram, manipularam o que foram aprender.

 

Sinto que o que mais me encantou foi a oportunidade de conhecer cada um deles e construir junto com eles. Como lá atrás, quando saí da EJA para o ensino fundamental, compreendi que a gente deve procurar ajudar os estudantes a obter coisas melhores, porque afinal é em busca disso que eles procuram a escola. E isso, eu tenho consciência de que consegui particularmente com um estudante. Considerado perigoso, mas, em relação ao qual há quem até hoje diga para mim: “O trabalho que você fez com esse estudante foi um trabalho maravilhoso”. E eu digo que não foi nada disso.

 

Eu não fiz nada. Quem fez foi ele mesmo, ele que soube aproveitar as coisas que estavam ali, na frente dele (...).

 

Na verdade, o Alumbrar, eu senti atração por ele desde que participei da formação e descobri que me tornaria melhor, como professora e como gente. Naquele momento, eu já sabia que seria um imenso desafio, posto que era formado com estudantes já matriculados e, no geral, fora da faixa etária, estudantes de sexto e sétimo anos. Foram duas turmas marcantes. Alegra-me reencontrá-los e ser por eles reconhecida.

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