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História

Alegrias do presente, sonhos do passado

História de: Maria Luiza Alves de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/07/2019

Sinopse

Maria Luiza Alves de Oliveira nasceu em Capivari- MG, em 10/12/1937. Um lugar pobre, poucos moradores, o serviço duro de roça garantindo a sobrevivência de uma mulher e seus 14 filhos. Dali foram para outras roças, enfrentando outras adversidades, outra miséria. Até por isso, Maria Luiza aceitou casar-se aos 13 anos. Felizmente, encontrou alguém do bem, que cuidou dela, dos filhos que tiveram. Uma vida de muita luta, sofrimento, superação e conquistas. A maior delas, certamente, a família que a assiste e que lhe dá a alegria de netos, bisnetos e tataranetos. Entretanto, permaneceu vivo em seu coração, um amor de infância, um amor que não se consolidou, mas jamais deixou de existir. E que ilumina suas noites até hoje, com sonhos e lembranças de um passado já distante.

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História completa

Maria Luísa Alves de Oliveira. Este o meu nome completo, após casar-me com apenas treze anos. Nascida em 10 de dezembro de 1937, éramos quatorze em casa com a minha mãe. Ausente a figura do pai: o biológico nunca assumiu; o que registrou, abandonou todas nós. Éramos dez meninas, e minha mãe sempre dizia:

“Vou fazer casar, porque o que eu vou ficar fazendo com esse bando de mulher dentro de casa? A troco do quê?”

A gente vivia uma vida de muita miséria, muita precisão. Lembro de que, aos onze anos, quando saímos do lugar onde nasci - Capivari, hoje Consolação, Minas Gerais - eu era feia, encardida, cobertor nas costas, nunca tinha posto um calçado nos pés. Saímos em busca de trabalho, fomos para Sorocabana. Chegando lá, foi só entrar no mato e trabalhar na roça. Como sempre fizemos, desde muito pequenas. Lá em Capivari também era na roça o nosso trabalho, ajudando a mãe - roça dos outros, bem entendido. A mãe ensinava a gente a pegar café, abanar o café. Capivari era uma vila esquecida, pouca gente morando. Nossa casa era pequena, muito pobre, difícil de caber aquele bando de criança, tudo assim “encarreiradinho”, uma pobreza… Há pouco visitei essa casa da infância; está lá, bem velha e agora destelhada. Lembro de que lá, “dormia assim, de punhado, tudo numa cama, colchão de palha, palha de milho”. E a mãe mandava ir para o rio pescar, pegar o peixe para nos alimentar. Só ia para a escola um pouco, quando não era época de colheita de algodão, café… Ia para o meio do mato assim até chegar à vila lá para então ir para a escola.. Mas, praticamente, não tivemos tempo de estudar. Assim como não tivemos infância, não tínhamos tempo de brincar, era o tempo todo só trabalhando na roça. A mesma coisa quando fomos para Sorocabana, trabalhar lá no meio do mato, naquele sertão mesmo.

(...) pegando umas touceiras de amendoim para bater, você via aqueles rolos de cobra que estavam debaixo assim, aquelas cobras enormes. Era sertão de verdade, meio do mato.

E lá, morava numas casas bem velhas mesmo, de pau, telha de tabuinha. Casa velha, lugar bem feio, e muito sofrimento. A mãe arranjava uns padrastos, dos quais a gente morria de medo. Quando brigavam então… De madrugada, a gente tinha que fugir para o mato, buscar abrigo nas fazendas.

(...) aquela vida de sofrimento, de correr à noite.

E aí, a minha mãe foi dando um jeito de casar todas nós; bastava que alguém se interessasse. Todas bem novinhas assim, quatorze, quinze anos… Não vê eu? Treze anos. Nunca fui mocinha. Não deu tempo. Passei de menina para mulher casada; na primeira, segunda menstruação já engravidei. A diferença de idade para o filho mais velho - que por sinal, já morreu - era de treze anos e dez meses. E o pior é que casava, saía de casa, mas permanecia nos trabalhos de roça.

Aí, a gente foi morar num rancho, aquele monte de menina, tudo dormindo pelo chão. E chuva - chovia demais dentro do tal rancho. De manhã, a gente tinha que colocar as coisas para secar. Foi quando ofereceram para mãe um trabalho na fazenda - plantação, criação - e abrigo para a filharada. Era uma casa grande, que dividiu assim com o dono, um rapaz solteiro, de dezoito anos. E eu trabalhando, cuidando dos bichos, rendendo na roça mais do que todas, porque eu fazia com gosto, tinha cuidados com a criação. E ele vendo aquilo, logo deu um jeito de desmanchar o noivado e pedir à minha mãe que deixasse ele casar comigo. Eu disse: “Caso”. Vivemos muito bem, ele cuidou muito bem de mim - e eu dele - até que a doença o levou.

O casamento até que foi bonito, convidados, muita comida, teve baile, o vestido de noiva - a minha mãe cortou e eu costurei. Uma grinalda bonita, um buquê. Eu, com treze anos, fiz o meu vestido de noiva, veja se pode? E ficou bonito. Aí, casei, fomos morar numa casinha que ele fez lá embaixo, minha mãe ficou com as meninas na casa grande. Ele me ensinou a fazer tudo, a cozinhar, a torrar café. Cuidava da casa, do marido, fazia a comida dos empregados, lavava a louça e continuava na roça, com a criação, plantando… Mesmo com filho pequeno eu ia para a colheita, para o plantio, colocava a criança assim num caixote e ia lá. Até que tomou-se a decisão de ir para São Paulo, melhor para nós, melhor para os filhos, que nessa época já eram três. Em São Paulo nasceram os outros - nove ao todo. Viemos e trouxemos só roupas. E os filhos. E assim a vida foi indo, o marido se aprumou, eu trabalhava em casa de família e passei só a cuidar dos filhos. Que o marido teve empório, quitanda, mercado, padaria. Mas, no início, foi muito sofrido, muito triste, como é triste a vida do pobre. 

Com o tempo, novos tipos de comércio - mercados maiores, supermercados - não deu mais para continuar. meu esposo decidiu vender tudo. Empregou-se numa fábrica, mas foi por pouco tempo. Logo o perdemos para a doença - novo ainda. Fiquei com os filhos; depois cada um foi tomando o seu rumo, suas profissões, seus casamentos, suas famílias. Só tenho dois solteiros, uma mora comigo. Diz que não quer casar. A seguir, vieram os netos. Um tempo depois, os bisnetos. E agora chegaram os tataranetos.

Bom, mas então, tem a história dentro da história. Aquele amor infantil, eu com onze anos, ele com doze - o Joaquim. Até hoje eu estranho a noite em que não sonho com ele - novo, bonito que ele ficou, rapaz. Foi quando saímos de Capivari, ele, irmão do meu cunhado. Eu gostei daquele menino feio, “encorujadinho”.

Acho que quando se gosta de alguém, a primeira vez que você olha, o cupido acho que já flecha o coração. Aí, gostava daquele menino. E namorava, sabe? (...) mas era assim, só de olhar. Nossa, gostava demais dele.

Mas aí, a vida nos separou. Ele precisou ir para longe, trabalhar com o irmão lá para os lados do Paraná. E eu, vendo a situação da minha família, resolvi aceitar a proposta de casamento. Então, quando Joaquim voltou, já com idade para casar, eu já tinha dois filhos - já era casada. E ele chegou assim, um moço bonito que só vendo. Mas respeitou. Aí, foi embora, casou por lá, depois voltou, ficou morando perto dos irmãos. Que moravam perto de mim. Quando eu fiquei viúva, ele, já casado, os filhos crescidos, apareceu de novo. Mas eu tinha ainda filhos pequenos. Só que, até hoje eu penso nele. Por toda a minha vida, eu jamais deixei de pensar nele. O meu namoradinho de criança. E ainda sonho, sempre, sempre, sempre, com ele. Tinha ciúmes dele, coisa que nunca tive do meu marido. 

Eu tinha foto com ele, já tiramos foto juntos, dois caipiras assim bonitos, porque gostava, era namoradinho…


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