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História

Acreditei no meu potencial

História de: Camilla Fernandes de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/01/2021

Sinopse

Infância simples no Guarujá. Cursos de aprimoramento. Políticas Afirmativas. Graduou-se em Administração. Trabalho em uma área anteriormente dominada por homens no porto de Santos. Superação. Foco em objetivos profissionais.

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História completa

Eu sou muito a favor de políticas afirmativas, e como eu sou proveniente de uma família de classe média baixa, no meu bairro tem um programa, que, na verdade, não só tem no Guarujá, tem em várias cidades, que é o Círculo do Amigo do Menor Patrulheiro, então é o que hoje em dia a gente chama de aprendiz, que são adolescentes que tem a oportunidade de fazer cursos e aí são encaminhados pra um primeiro emprego, para o mercado de trabalho.

Eu participei de uma seleção, tem o processo seletivo, que é até bem concorrido, porque os cursos são muito bons, e aí, na minha época, eu fiquei acho que uns seis meses fazendo cursos de diversas áreas diferentes, tanto para aprender a se comunicar melhor, eu cheguei a fazer datilografia.

Trabalhei uns dois anos e meio no RH, foi meu primeiro emprego, um emprego com carteira assinada, então foi bem bacana, porque nessa época, com o salário desse emprego, eu consegui me inscrever no curso de inglês, que era uma coisa que eu queria muito fazer. Enfim, hoje é caro, naquela época era muito além da possibilidade da minha mãe e do meu pai, então eu comecei a fazer inglês com o salário desse primeiro emprego e também ajudar em casa, então foi muito bom assim essa oportunidade.

Eu acho que assim, enquanto primeiro emprego, além da oportunidade de concretizar alguns objetivos, foi muito importante pra eu aprender a lidar com pessoas. Como eu trabalhava no RH e tinha contato com funcionários de diversas áreas diferentes, eu acho que foi o primeiro choque de realidade em lidar com pessoas, em um ambiente profissional. Então foi acho que o mais enriquecedor, ter esse contato com pessoas de personalidades diferente, enfim....

Tive aquele lance da auto imagem, [problemas com espinhas], não sei se você lembra, que eu não me sentia muito confortável com a minha auto imagem na adolescência. Mas eu tive alguns meninos por quais eu me apaixonei, gostei. Fiquei com poucos, eu sou uma pessoa muito seletiva, e namorar sério, namorar sério, não, porque eu sempre fugi disso, o que acontece, as minhas duas irmãs mais velhas, elas namoraram e casaram muito cedo. E eu não queria aquilo para mim (risos). Então eu meio que fugia de relacionamento na adolescência, porque eu também, eu estava tão focada em ter um futuro melhor na época e me sobrava pouco tempo, então assim, eu tive umas paixonites, mas quando me pediu em namoro, eu geralmente saia correndo (risos). Não cheguei a namorar sério nessa fase.

Assim que eu saí do ensino médio, eu fiz o ENEM e foi o ano de lançamento do Prouni, e você tinha, se eu não me engano, duas ou três opções de curso que você gostaria de fazer, e ai o primeiro deles foi Relações Internacionais, que, na época, era o que eu queria muito, a segunda opção era ADM e a terceira eu acho que era alguma coisa relacionada a logística, não vou lembrar agora. E eram poucas as vagas, e eu lembro que na universidade que eu consegui bolsa, tinha uma vaga pra cada área.  Apesar de não ter sido a minha primeira escolha, eu decidi fazer o curso porque era um curso 100% gratuito, um curso universitário, e, na época, nenhuma das minhas outras duas irmãs mais velhas tinham ido a faculdade, eu fui a primeira da minha família a se graduar. Então foi uma grande oportunidade e eu fiz administração por conta disso, por ter ganhado a bolsa.

Desde o começo [na carreira portuária], sempre trabalhei em terminais de containers, e como monitora de navio, eu era responsável por carregar as cargas, por descarregar e controlar os conferentes que ficavam a bordo do navio, e também os operadores. E, nessa época, não tinha nenhuma mulher nessa função. Eu cheguei na empresa tinha já uma planner chamada Ana Paula, que eu acho que foi a primeira planner, se eu não me engano, no porto de Santos, e na função de monitora de navio não tinham mulheres, eram só homens, então todas as equipes só tinham homens. Hoje já é um pouco mais comum você ver mulheres, tanto na parte operacional, quanto na área de planejamento. Então no início eu sofri um pouco de resistência, foi difícil no começo, até por conta de juntar o fato de ser mulher e ser muito nova, porque eu entrei na área portuária eu tinha 22 anos, tinha 22 pra 23... É, acho que 22. Então foi um começo um pouco desafiador.

E assim, a forma de comunicação no porto também, por ser um ambiente muito masculino e não ter mulheres, pelo menos quando eu cheguei, foi eu e mais duas colegas da época de estagio, que fomos contratadas juntas, e a gente acabou ficando em equipes diferente. Mas a tratativa é um pouco mais firme, é um pouco diferente, e assim, no começo as pessoas estranhavam, alguns tentavam proteger e ser mais educados e bonzinhos, e outros na verdade queriam te testar, para saber se você estava ali porque você realmente tinha capacidade ou não.

No início, eu acho que o maior desafio era provar que eu tinha capacidade de fazer e desempenhar a mesma função que todos eles, então... Por conta da idade e por conta de ser mulher, acho que esse foi o principal desafio a ser vencido no início. Depois, com o tempo, ganhando experiência e a confiança das pessoas, foi ficando cada dia mais fácil, mas no início tinha essa suspeita. "O que essa pirralha tá fazendo aqui".

Assim, eu vejo que a área portuária tem mudado muito a característica dela, que antes era muito braçal, era... Enfim, era muito baseado na força, então assim, você trabalhar no porto exigia que você tivesse força física e hoje é a força mental que faz a diferença. Então acho que ver essa transição, do trabalho braçal pra um trabalho mais analítico, mais técnico, então isso acho que é uma grande revolução e eu sinto que nesses últimos anos eu participei de boa parte dela.  

Quando eu via injustiça ou coisas que não eram corretas, eu nunca me amedrontei. Então assim, das vezes que as pessoas tentaram me intimidar, não surtiu muito efeito. Na verdade, tem o efeito acho que contrário, né? Quando você quer muito algo e as pessoas ou duvidam de você ou de alguma forma querem te desmerecer, às vezes, isso acaba sendo um combustível para você provar que as pessoas estão erradas.

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